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PAPA FRANCISCO

MEDITAÇÕES MATUTINAS NA SANTA MISSA CELEBRADA
NA CAPELA DA DOMUS SANCTAE MARTHAE

Deus escolhe os pequeninos

 

Publicado no L'Osservatore Romano, ed. em português, n. 04 de 24 de Janeiro de 2014

Deus escolhe sempre «o mais pequenino», chama-os pelo nome e estabelece com eles uma relação pessoal: é por isso que para dialogar com ele é preciso antes de mais ser «pequenino». Recordou o Papa Francisco na missa celebrada na terça-feira, 21 de Janeiro, memória litúrgica de Santa Inês virgem e mártir.

Precisamente a leitura do primeiro livro de Samuel (16, 1-13a) que narra a unção de David, sugeriu ao Pontífice a reflexão para a homilia. «A relação do Senhor com o seu povo — disse — é uma relação pessoal, sempre». É por esta razão, explicou, que «o Senhor nunca fala ao povo» como se se dirigisse a uma «multidão». Além disso, o Senhor «escolhe pessoalmente», acrescentou o Papa sugerindo o exemplo da «narração da criação. O próprio Senhor, que com as suas mãos faz artesanalmente o homem, atribui-lhe um nome: chamas-te Adão. Começa assim aquela relação entre Deus e a pessoa».

O Papa indicou depois outro aspecto fundamental: «quando Deus deve escolher as pessoas, inclusive o seu povo, escolhe sempre os pequeninos». Prosseguindo a reflexão sobre «este diálogo entre o Senhor e a nossa pequenez, a pequenez de cada um de nós», o Papa fez uma pergunta: «Onde está a fidelidade cristã?». E respondeu: «A fidelidade cristã, a nossa fidelidade consiste simplesmente em conservar a nossa pequenez para poder dialogar com o Senhor». Eis por que «a humildade, a suavidade e a mansidão são tão importantes na vida do cristão: são uma preservação da pequenez». São as bases para levar sempre em frente «o diálogo entre a nossa pequenez e a grandeza do Senhor».

Na manhã de segunda-feira, 20 de Janeiro, o Papa Francisco propôs a reflexão sobre discernimento e docilidade: duas palavras que descrevem a atitude justa para viver a liberdade da palavra de Deus, rompendo esquemas e hábitos com a capacidade de se adaptar às surpresas contínuas e à novidade.

O Pontífice centrou a sua meditação nas leituras propostas pela liturgia — o trecho tirado do primeiro livro de Samuel (15, 16-23) e a passagem evangélica de Marcos (2, 18-22) — que ajudam a «reflectir sobre a palavra de Deus» e acerca da «nossa atitude diante da palavra de Deus». As duas leituras — disse — «falam-nos desta atitude que devemos ter» diante da «palavra de Deus: a docilidade». A palavra de Deus é viva. A palavra de Deus «é livre». E é «também surpresa, porque o nosso Deus é o Deus das surpresas. É novidade. O Evangelho é novidade. A revelação é novidade».

Na sua reflexão, o Papa voltou ao trecho do primeiro livro de Samuel. As palavras de Samuel «fazem-nos pensar no significado da liberdade cristã, o que é obediência cristã», disse o Papa. «A liberdade cristã e a obediência cristã é docilidade à palavra de Deus; é ter a coragem de se tornar odre novo para o vinho novo que é concebido continuamente. A coragem de discernir sempre, discernir — e não relativizar — sempre o que faz o espírito no meu coração, o que o espírito quer no meu coração, para onde me leva o espírito no meu coração. E obedecer». Concluiu com as duas palavras-chave da sua meditação, «discernir e obedecer», e com uma oração.

O Santo Padre na sexta-feira 17 de Janeiro convidou a viver a «docilidade espiritual» sem «vender» a própria identidade cristã. A «mundanidade espiritual» é uma tentação perigosa porque «amolece o coração» com o egoísmo e insinua nos cristãos um «complexo de inferioridade» que os leva a uniformizar-se com o mundo, a agir «como fazem todos» seguindo «a moda mais divertida».

O Pontífice partiu da leitura litúrgica tirada do primeiro livro de Samuel. Meditando quanto é narrado no livro de Samuel «vimos — prosseguiu — como o povo, afastado da palavra de Deus, tinha sofrido aquelas derrotas» que tinham provocado muitíssimos mortos e deixado «viúvas e órfãos». Eram «as derrotas» de um povo que «se tinha afastado» do caminho indicado pelo Senhor.

Sem dúvida, esclareceu o Papa, «é verdade que o cristão deve ser normal, como são normais as pessoas. Mas — admoestou — há valores que o cristão não pode ficar com eles». E «a normalidade da vida exige que o cristão seja fiel à sua eleição». Esta sua eleição nunca deve «ser vendida para se encaminhar rumo a uma uniformidade mundana». «A tentação — frisou o Pontífice — endurece o coração. E quando o coração é duro, quando não está aberto, a palavra de Deus não pode entrar». Eis a prioridade: «Receber a palavra de Deus para não se afastar da eleição».

Na oração no início da missa — recordou o Pontífice — pedimos a graça de superar os nossos egoísmos, em particular o de querer fazer a própria vontade.

«Sentimos vergonha dos escândalos na Igreja?». Foi um exame de consciência profundo o que o Papa Francisco propôs na quinta-feira, 16 de Janeiro. Um exame de consciência que vai à raiz das razões dos «muitos escândalos». E precisamente por causa dos escândalos não se dá ao povo de Deus «o pão da vida» mas «uma refeição envenenada». Os escândalos — explicou o Papa — aconteceram porque «a palavra de Deus escasseava nos homens e mulheres» que os cometeram, aproveitando-se da própria «posição de poder e de comodidade na Igreja» sem contudo nada ter a ver com «a palavra de Deus». Porque, frisou, de nada serve dizer «tenho uma medalha» ou «uso a cruz» se não «tivermos uma relação viva com Deus e com a sua palavra!».

A reflexão do Pontífice foi inspirada pela oração do salmo responsorial — número 43 — proclamado na liturgia do dia. Uma prece que se refere a quanto é narrado na primeira leitura, isto é, à derrota de Israel. Fala-se também no primeiro livro de Samuel (4, 1-11). O salmo citado pelo Papa recita: «Senhor, rejeitastes-nos e confundistes-nos; e já não ides a frente dos nossos exércitos. Fizestes-nos recuar diante do inimigo e quantos nos odiavam depredaram-nos». Foi com estas palavras disse o Pontífice, que «o justo de Israel rezou depois de muitas derrotas que sofreu na sua história». Contudo, neste contexto, prosseguiu o Papa, o povo «dá-se conta» que está «distante de Deus e diz “vamos procurar a arca”». Mas levam «a arca para o acampamento» como se fosse a expressão de uma magia: portanto não se puseram à procura do Senhor mas de «algo mágico».

«O trecho da Escritura — frisou o Papa — faz-nos pensar» no modo «como é a nossa relação com Deus, com a palavra de Deus. É uma relação formal, uma relação distante? A palavra de Deus entra no nosso coração, muda o nosso coração, tem este poder ou não?». Uma série de perguntas — frisou o Pontífice — que «nos leva a pensar nas muitas derrotas da Igreja. Muitas derrotas do povo de Deus». Derrotas causadas «simplesmente» pelo facto que o povo «não ouve o Senhor, não o procura, não se deixa procurar pelo Senhor». E acrescentou: «Muitos escândalos que não quero mencionar um por um, mas todos os conhecem». E neste ponto falou sem meios termos sobre «vergonha da Igreja» pelos escândalos que soam como muitas «derrotas de sacerdotes, bispos e leigos».

O Papa Francisco concluiu a homilia com dois pensamentos: a palavra de Deus e o povo de Deus. Quanto ao primeiro propôs um exame de consciência: «É viva a palavra de Deus no nosso coração? Muda a nossa vida ou é como a arca que vai e vem?». Em relação ao povo de Deus reflectiu sobre o mal que lhe fazem os escândalos.

 



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