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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
AOS PARTICIPANTES NA CONFERÊNCIA EUROPEIA DA JUVENTUDE

[PRAGA, 11-13 de JULHO DE 2022]

Queridos jovens!

Estou muito contente com esta possibilidade de me dirigir a vós que tomais parte na Conferência Europeia da Juventude. Tenho algo a dizer-vos que me está muito a peito. Antes de mais nada, quero convidar-vos a transformar o «Velho Continente» num «continente novo», e isto só é possível convosco. A vossa geração apresenta-se dotada de particulares recursos – sois jovens atentos, menos ideologizados, habituados a estudar noutros países europeus, abertos a experiências de voluntariado, sensíveis às temáticas do meio-ambiente –, por isso sinto que há uma esperança.

Vós, jovens europeus, tendes uma missão importante. Se outrora os vossos antepassados se aventuraram para outros continentes, nem sempre por interesses nobres, agora compete-vos a vós apresentar ao mundo um novo rosto da Europa.

Quanto à origem do nome «Europa», ainda não há uma certeza. De entre as várias hipóteses, há uma que é particularmente sugestiva: o nome derivaria da expressão eurús op, ou seja, «vista grande», «amplo olhar», que evoca a capacidade de olhar mais além. Figura mitológica que fizera os deuses enamorarem-se dela, Europa era chamada «a donzela dos olhos grandes». Apraz-me pensar-vos assim, jovens europeus, como pessoas de olhar amplo, aberto, capazes de ver mais além.

Talvez tenhais já ouvido falar da iniciativa, lançada em setembro de 2019, designada Pacto Educativo Global. Trata-se duma aliança entre os educadores de todo o mundo com a finalidade de educar as gerações jovens para a fraternidade. Mas, vendo como está a andar este mundo guiado por adultos e idosos, parece que deveríeis antes ser vós a educar os adultos para a fraternidade e a convivência pacífica!

Entre os primeiros compromissos do Pacto Educativo, aparece o de ouvir as crianças, os adolescentes e os jovens. Por isso, queridos jovens, fazei ouvir a vossa voz! Se não vos ouvirem, gritai ainda mais forte, fazei rumor, tendes todo o direito de dar a vossa opinião sobre o que diz respeito ao vosso futuro. Encorajo-vos a ser empreendedores, criativos e críticos: como sabeis, quando um professor tem alunos exigentes, críticos e atentos nas aulas, sente-se estimulado a empenhar-se mais e preparar melhor as lições.

Neste Pacto, não há «remetentes» e «destinatários», mas todos somos chamados a educar-nos em comunhão, como sugeria o pedagogo brasileiro Paulo Freire. Portanto, não tenhais medo de ser exigentes: tendes o direito de receber o melhor para vós próprios, tal como os vossos educadores têm o dever de dar o melhor de si mesmos.

De entre as várias propostas do Pacto Educativo Global, recordo duas que vi referidas também na vossa Conferência.

A primeira é «abrir-se ao acolhimento», ou seja, o valor da inclusão: não vos deixeis arrastar por ideologias míopes que pretendem mostrar-vos o outro, o diverso como um inimigo. O outro é uma riqueza. A experiência de milhões de estudantes europeus que aderiram ao «Projeto Erasmus» atesta que o encontro entre indivíduos de povos diversos ajuda a abrir os olhos, a mente e o coração. É bom ter «olhos grandes» para se abrir aos outros. Nenhuma discriminação contra ninguém, por nenhuma razão. Sejamos solidários com todos; não só com quem se parece comigo ou mostra uma imagem de sucesso, mas também com aqueles que sofrem, independentemente da sua nacionalidade e condição social. Não esqueçamos que, no passado, milhões de europeus tiveram de emigrar para outros continentes em busca de um futuro. Também eu sou filho de italianos que emigraram para a Argentina.

O objetivo principal do Pacto Educativo é educar a todos para uma vida mais fraterna, baseada, não na competitividade, mas na solidariedade. Que a vossa maior aspiração, queridos jovens, não seja a de entrar nos ambientes formativos de elite, aonde pode aceder apenas quem tem muito dinheiro. Frequentemente tais instituições têm interesse em manter o estado em que as coisa se encontram, em formar pessoas que garantam o funcionamento do sistema assim como está. Ao contrário, há que apreciar as realidades que unem a qualidade formativa com o serviço ao próximo, sabendo que a finalidade da educação é o crescimento da pessoa orientada para o bem comum. Serão estas experiências solidárias que hão de mudar o mundo; não as experiências «exclusivas» (e de exclusão) das escolas de elite. Excelência sim, mas para todos! Não apenas para alguns...

Proponho-vos a leitura da Encíclica Fratelli tutti (3 de outubro de 2020) e o Documento sobre a Fraternidade Humana (4 de fevereiro de 2019) que assinei em conjunto com o Grande Imã de Al-Azhar. Sei que muitas universidades e escolas muçulmanas estão a aprofundar, com interesse, estes textos e espero que possam entusiasmar-vos também a vós. Educação, pois, não só para «se conhecer a si próprio», mas também para conhecer o outro.

A outra proposta que quero recordar diz respeito ao cuidado pela casa comum.

Também aqui notei com prazer que, enquanto as gerações anteriores falavam muito e concluíam pouco, vós, ao contrário, sois capazes de iniciativas concretas. Por isso digo que esta pode ser a ocasião boa. Se não conseguirdes vós dar uma viragem decisiva a esta tendência autodestrutiva, será difícil que o consigam outros no futuro. Não vos deixeis seduzir pelas sereias que propõem uma vida de luxo reservada a uma pequena porção do mundo: oxalá tenhais «olhos grandes» para ver todo o resto da humanidade, que não se reduz à pequena Europa; oxalá aspireis a uma vida digna, mas sóbria, sem luxo nem desperdícios, para que todos possam habitar o mundo com dignidade. É urgente reduzir o consumo não só de combustíveis fósseis, mas também de muitas coisas supérfluas; e de igual modo é conveniente, em certas regiões do mundo, consumir menos carne: também isto pode ajudar a salvar o meio ambiente.

A propósito, far-vos-á bem – se é que ainda não o fizestes – ler a Encíclica Laudato si’, onde crentes e não-crentes têm encontrado sólidas motivações para se empenhar a favor duma ecologia integral. Educar, pois, para conhecer, além de si mesmo e do outro, também a criação.

Queridos jovens, ao mesmo tempo que estais a realizar a vossa Conferência, na Ucrânia (que não é União Europeia, mas é Europa), combate-se uma guerra absurda. Esta, juntando-se aos numerosos conflitos em curso em diversas regiões do mundo, torna ainda mais urgente um Pacto Educativo que a todos instrua para a fraternidade.

A ideia duma Europa Unida brotou dum forte anseio de paz, depois de tantas guerras travadas no Continente, e levou a um período de paz que durou setenta anos. Agora todos nos devemos empenhar para pôr fim a esta loucura da guerra, onde, como de costume, uns poucos poderosos decidem e mandam a combater e morrer milhares de jovens. Em casos como este, é legítimo rebelar-se!

Disse alguém que, se o mundo fosse governado pelas mulheres, não haveria tantas guerras, porque elas que têm a missão de dar a vida não podem abraçar opções de morte. De modo semelhante apraz-me pensar que, se o mundo fosse governado pelos jovens, não haveria tantas guerras: aqueles que têm toda a vida diante de si, não a querem esfrangalhar e malbaratar, mas vivê-la em plenitude.

Queria convidar-vos a conhecer a figura extraordinária de um jovem objetor, um jovem europeu dos «olhos grandes», que lutou contra o nazismo durante a II Guerra Mundial, Franz Jägerstätter, proclamado Beato pelo Papa Bento XVI. Franz era um jovem agricultor austríaco que, devido à sua fé católica, fez objeção de consciência perante a ordem de jurar fidelidade a Hitler e ir para a guerra. Franz era um jovem alegre, simpático, descontraído que ao crescer, graças também à sua esposa Francisca com quem teve três filhos, mudou a sua vida e maturou convicções profundas. Quando foi chamado às armas, recusou-se, porque sentia injusto matar vidas inocentes. Esta sua decisão desencadeou reações duras contra ele da parte da sua comunidade, do Presidente da Câmara, e mesmo de familiares. Um sacerdote tentou dissuadi-lo para bem da sua família. Todos estavam contra ele, exceto a sua esposa Francisca, a qual, embora ciente dos perigos tremendos que corriam, sempre esteve da parte do marido e apoiou-o até ao fim. Não obstante as adulações e as torturas, Franz preferiu ser morto do que matar. Considerou a guerra totalmente injustificada. Se todos os jovens chamados às armas tivessem feito como ele, Hitler não teria conseguido realizar os seus planos diabólicos. Para vencer, o mal precisa de cúmplices.

Franz Jägerstätter foi morto na prisão, onde se encontrava encarcerado também o seu coetâneo Dietrich Bonhoeffer, jovem teólogo luterano alemão, antinazista, que conheceu o mesmo trágico fim.

Estes dois jovens «dos olhos grandes» foram mortos, porque se mantiveram fiéis até ao fim aos ideais da sua fé. E aqui está a quarta dimensão da educação: depois do conhecimento de si mesmo, dos outros e da criação, temos enfim o conhecimento do princípio e do fim de tudo. Queridos jovens europeus, convido-vos a olhar mais além, para o Alto, procurando sempre o sentido da vossa vida, a vossa origem, o fim, a Verdade, porque não se vive se não se busca a Verdade. Caminhai com os pés bem assentes na terra, mas com um olhar amplo, aberto para o horizonte, para o céu. Poder-vos-á ajudar nisto a leitura da Exortação apostólica Christus vivit, dirigida especialmente aos jovens. E depois convido-vos a todos para a Jornada Mundial da Juventude do próximo ano em Lisboa, onde podereis partilhar os vossos sonhos mais belos com jovens de todo o mundo.

E quero concluir com um voto: que sejais jovens generativos, capazes de gerar novas ideias, novas visões do mundo, da economia, da política, da convivência social; e não só novas ideias, mas sobretudo novos caminhos para serem percorridos juntos. E que sejais generosos também em gerar novas vidas, sempre e só por amor! Amor ao vosso marido e à vossa esposa, amor à família, amor aos vossos filhos, e também amor à Europa a fim de ser, para todos, terra de paz, liberdade e dignidade.

Bom encontro e bom caminho! De coração vos envio a minha saudação e a minha bênção. E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

Roma, São João de Latrão, 6 de julho de 2022.

 

FRANCISCO



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