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DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
NA AUDIÊNCIA GERAL EXTRAORDINÁRIA
A NUMEROSAS PEREGRINAÇÕES ITALIANAS

Sala Paulo VI
Sábado, 10 de dezembro de 1983

 

1. “Oh! como é bom, como é agradável viverem os irmãos em boa união” (Sl. 132/131, 1). Vêm-nos espontaneamente à memória as palavras do Salmo 132 ao contemplar a vossa festiva assembleia, caríssimos irmãos e irmãs, aqui reunidos para este encontro que tanta alegria traz ao meu coração.

Ao dirigir-vos a minha afectuosa saudação, desejo manifestar-vos grato apreço pelo testemunho de fé e de comunhão eclesial, que a vossa peregrinação aos túmulos dos Apóstolos e esta visita ao Sucessor de Pedro exprimem com tanta eloquência. Vindes de várias partes da Itália, mas, por este motivo não vos sentis estranhos uns aos outros. De facto, compartilhais as mesmas convicções cristãs, alimentais os mesmos ideais, caminhais por caminhos diversos para a mesma meta.

Como deixar de sentir alegria pela experiência de catolicidade vivida, que vos é oferecida por esta presença no Centro da Cristandade? Faço votos por que ela sirva para suscitar em cada um de vós renovados propósitos de coerência com os empenhos derivados do baptismo e com as opções de fundo, que deram um rosto definitivo à vossa existência.

2. A minha palavra dirige-se antes de tudo aos peregrinos das dioceses de Velletri e Segni, que o Bispo, D. Marino Comiero, acompanhou aqui por ocasião do Jubileu Extraordinário da Redenção.

Caríssimos, ao saudar-vos com sincera cordialidade, o meu pensamento leva-me à visita que tive a satisfação de realizar, em Setembro de 1980, à cidade de Velletri, recebendo um caloroso acolhimento, cuja recordação trago sempre viva na alma. O encontro desta manhã permite-me continuar o diálogo então iniciado com a vossa Comunidade.

O que hoje quereria dizer-vos é-me sugerido pelo período litúrgico em que nos encontramos: o Advento é o tempo da expectativa. Estamos a viver uma expectativa, que se renova de ano a ano, mas que, vendo bem, surpreende cada dia da nossa vida; porque a expectativa é parte essencial da nossa experiência humana. O homem, de facto, não se basta a si mesmo, nem se encontra plenamente naquilo que vive no âmbito do quotidiano. Seguindo o impulso mais profundo do coração, sente a necessidade de superar-se a si mesmo, para encontrar alguma coisa ou Alguém, que esteja em condições de dar pleno sentido à aventura de que é protagonista na terra.

O Advento convida-nos a tomar renovada consciência desta expectativa existencial, que "marca” o nosso ser e o orienta a transcender-se, a fim de se dispor para o encontro com “Aquele que há-de vir”. Aliás, o convite da Liturgia empenha-nos a ajudar também os outros na descoberta desta estrutura de fundo do seu ser, aquela a que chamaria a “estrutura do Advento" própria do homem. De facto, só quem sabe descobrir a própria imperfeição, pode desejar superar-se a si mesmo para procurar a própria realização onde, unicamente, a pode encontrar.

O Ano Jubilar da Redenção constitui uma ocasião privilegiada para esse encontro, pelo qual cada coração aspira mesmo sem o saber. Oxalá este tempo de graça vos ofereça, fiéis de Velletri e de Segni, e a todos vós aqui reunidos, a alegria de uma experiência, mais pessoal e intensa, da libertadora presença de Cristo, de modo a cada um se sentir empenhado a levar àqueles de quem se aproxima, com o mesmo entusiasmo do apóstolo André depois do primeiro encontro com Jesus, a alegre notícia: “Encontramos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo. 1, 41).

3. E agora o meu pensamento dirige-se, com boas vindas cordiais, para os membros da União Católica Italiana dos Professores do Ensino Médio, que desejaram coroar o seu Congresso Jubilar de Cassino com uma solene Eucaristia na Basílica Vaticana e com a participação nesta Audiência.

Caríssimos, a ideia que tivestes de celebrar um “Ano Santo do Professor” é muito significativa, e apta a iluminar a estreitíssima relação que existe, para o cristão, entre a missão do ensino e o caminho da conversão e a reconciliação com Deus e com os irmãos.

A ética do professor atinge, de facto, a substância mesma da vida moral e espiritual, e deve ser tida sempre na maior consideração. Ele está continuamente em contacto com aquele valor tão determinante para a dignidade e o destino do homem, que é o valor da verdade: antes de tudo verdade que se deve respeitar e adquirir mediante uma busca séria e difícil, e depois comunicar aos irmãos com lealdade — umas vezes com delicadeza, outras com firmeza, mas sempre com caridade — procurando o mais possível, no modo de a apresentar, torná-la acessível a todos, sem todavia lhe diminuir as exigências e as perspectivas, sobretudo no campo moral e espiritual.

Não me detenho a salientar a importância e a urgência da vossa tarefa específica de leigos católicos, operantes na escola e no sector da cultura de hoje. São mais do que evidentes. Quereria apenas recordar-vos a necessidade de um empenho que, embora no respeito de um legítimo pluralismo, saiba enfrentar com verdadeiro espírito de unidade os problemas a resolver e as grandes e exaltantes tarefas de renovamento e difusão da cultura católica apresentadas pelo Concílio.

Em ambientes escolares, em que é forte a presença de ideologias anticristãs ou indiferentes aos valores da transcendência, o professor católico pode e deve ser, segundo o mandato de Cristo, “luz do mundo e sal da terra”. Isto obriga-o a um prévio e sério trabalho de preparação moral e cultural, que lhe permita animar com as próprias convicções da fé também o ensino das matérias profanas mesmas, e fazê-lo com espírito de serviço e ao mesmo tempo no respeito das consciências.

A vossa tarefa, caros professores, não é certamente fácil: são necessárias, na transmissão da verdade, uma humildade avessa a pusilanimidade e oportunismo, e uma corajosa clareza capaz de compor em harmoniosa síntese fé e cultura, cristianismo e vida. É praticamente impossível obter tal síntese sem uma continua tensão moral e, sobretudo, sem a assistência do Espírito Santo. Eis então que emerge mais uma vez a oportunidade da vossa iniciativa, pela qual não posso deixar de exprimir a minha calorosa aprovação, unida ao afectuoso encorajamento a perseverar nos generosos propósitos por ela suscitados nos vossos ânimos.

4. Desejo agora dirigir-me directamente a vós, caros Representantes do “Movimento Cristão dos Trabalhadores” que, ao celebrardes em Roma o vosso Congresso Nacional, quisestes renovar com esta vossa visita a expressão de homenagem devota ao sucessor de Pedro e de fidelidade ao magistério da Igreja.

Propusestes-vos discutir, nestes dias, temas importantes, como o da presença dos movimentos católicos na sociedade contemporânea, o da eclesialidade do seu empenho e o da afirmação de uma nova cultura do trabalho, entendida sobretudo para promover a pessoa.

Sim, caros irmãos, não vos canseis nunca de promover uma cultura autenticamente cristã que tenha como principal objectivo a tutela e a salvaguarda da pessoa do trabalhador! É, esta, uma causa tão nobre e nobilitante á qual vale a pena consagrardes todas as vossas energias e todos os vossos esforços. Para tal fim é necessário promover a colaboração harmónica de todas as componentes sociais, graças à qual sejam garantidas a devida participação no progresso económico e civil, a justa distribuição dos  benefícios derivados do trabalho conjunto e a necessária m solidariedade humana e espiritual, como convém a homens que trazem gravada na própria alma a imagem e a semelhança de Deus, e como se adequa a irmãos que se reconhecem num mesmo Pai que está nos céus.

Sabei haurir força destes princípios cristãos para vos abrirdes cada vez mais aos valores do espírito e para traduzirdes em pratica a doutrina social da Igreja. Deste modo não vos deixareis assaltar pela tentação de resolver os problemas fazendo recurso a doutrinas ou fórmulas impregnadas de materialismo, as quais pretendem salvar o homem apenas com as forças humanas. Guie-vos neste esforço a virtude da caridade, humilde e forte, que nos é ensinada por Cristo com a palavra e com o exemplo.

A minha saudação particularmente afectuosa dirige-se também aos trabalhadores da Sociedade industrial de Marcianise, na diocese de Casetta, aqui acompanhados pelo seu Bispo, D. Vito Roberti. Caríssimos, agradeço-vos esta visita e exprimo-vos o voto de que a celebração do vosso Jubileu dê grande alegria ao vosso coração, vos torne verdadeiramente irmãos, estimulando-vos à solidariedade no trabalho e a uma adesão a Cristo Redentor cada vez mais consciente e activa.

5. E por fim a minha saudação alarga-se para abranger todos os outros peregrinos desta Audiência: em particular, a representação da Comunidade das Marcas residente em Roma, acompanhada pelo Senhor Cardeal Pietro Palazzini; o grupo de industriais provenientes de Bolonha; a representação da Associação “Famiglia Dauna” de Roma, que reúne profissionais originários da província de Foggia; a peregrinação da paróquia de Arcellasco d’Erba, na diocese de Milão; a peregrinação da Cooperativa “Nuova Scuola”, de Reggio Emilia; os jogadores da equipa de futebol da União Desportiva de Avellino, com os Directores e os Familiares.

A todos desejo que a vinda a Roma para a celebração jubilar seja fonte de íntima alegria e de renovado impulso no empenho de coerente testemunho cristão. É um voto que eu confio à intercessão de Nossa Senhora Imaculada, cuja festa solene celebrámos há pouco. A protecção da Virgem Santíssima desça sobre vós e sobre os vossos Entes queridos, para vos guardar de todo o mal e guiar com mão firme pelos caminhos do bem.

Com estes votos, a todos de coração a minha Bênção Apostólica.

 



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